Bitcoin: o primeiro contato a gente nunca esquece

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A primeira vez que ouvi falar do Bitcoin, minha reação foi certamente muito parecida com a da enorme maioria das pessoas: desconfiança e até desprezo. Na época, por volta de 2011 ou 2012, o BTC (a "moeda" do Bitcoin) valia centavos e era coisa de nerds, geeks, cipherpunks e outros aficionados. A notícia que me chamara a atenção era que o fundador da "empresa" (um certo japonês misterioso), havia desaparecido sem deixar rastro. Não poderia haver nada mais suspeito parecido com fraude do que isto. Acabei abandonando qualquer leitura sobre o assunto pois aquilo, com certeza, era perda de tempo. Além do mais, eu estava trabalhando num grande projeto de M&A (Mergers & Acquisitions) e estava com pouco tempo pra desperdiçar com leituras sobre coisas "que não tinham a menor chance de prosperar". Esqueci o assunto.

Continuei o meu trabalho como advisor até que em 2014 resolvi dar uma pausa e decidi voltar a fazer aquilo que mais gosto, desenvolver software. Foi quando percebi que eu era um verdadeiro dinossauro. Me formei em Ciência da Computação em 1988, quando não havia Windows, Internet, Programação Orientada a Objetos. Fiquei muito tempo afastado da programação e percebi que eu já não sabia mais nada. Todas as técnicas que eu conhecia  há muito não eram sequer utilizadas. Então resolvi me reinventar. Desliguei-me da boutique de M&A da qual era sócio desde 2008 e fui morar nos EUA para reaprender a desenvolver software. A ideia era tentar aprender as novas técnicas para que, se aparecesse algo para empreender eu estaria preparado. Voltei para o banco da escola  e fui estudar as novas tecnologias. No período em que morei na Flórida com a família, tive contato com tudo o que estava acontecendo de novo: Impressão 3D, Internet das Coisas,  Machine Learning, Pattern Recognition, Virtual/Augmented Reality, Drones, entre outros. Foi nesse momento que me deparei novamente com o tal do Bitcoin.

Desta vez foi diferente, eu tinha mais tempo. Utilizava intensamente o site Khan Academy para aprender sobre vários assuntos, de computação à matemática passando por história, biologia e economia, tudo estava lá, disponível gratuitamente para quem quisesse aprender. Minha surpresa foi quando vi que um dos cursos da cadeira de economia era sobre o Bitcoin. Desta vez resolvi investigar o assunto com o devido respeito pois se estava no Khan Academy, talvez não fosse aquilo que eu pensava que era. Comecei a estudar com alguma profundidade e rapidamente me empolguei com o brilhantismo da solução do tal japonês, que aliás até hoje ninguém sabe por onde anda ou mesmo se existe.

Quanto mais eu me aprofundava, mais admirava o invento. Gosto de me referir ao Bitcoin como o maior feito da ciência da computação desde a internet. Daí pra frente virei quase um Bitcoin fanático. Comprei alguns BTC no intuito de entender o funcionamento da coisa. Se tivesse comprado como investimento, teria comprado muito mais pois em 2015 era bem barato comparado com os valores de hoje. Passei a tentar utilizar o BTC de qualquer jeito, mas ninguém sabia o que era aquilo ainda. Cheguei a distribuir BTC para várias pessoas. Transferia simplesmente pelo prazer de ter alguém pra enviar o "dinheiro". Transferi para o meu pai, meus irmãos, sobrinhos, qualquer um que mostrasse o menor interesse naquela conversa maluca de dinheiro eletrônico eu já sacava logo a minha carteira e transferia algumas moedas. A reação de cada um que eu abordava era diferente, mas a maioria não acreditava e não dava a menor bola para aquilo. Quase todos perderam ou não sabem mais onde estão aqueles BTCs.

Certa vez, enquanto morávamos na Flórida, um grande amigo foi me visitar e apaixonou-se perdidamente por Alexa, a minha caixa de música da Amazon que tinha acabado de ser lançada, uma verdadeira novidade. Ele me pediu que comprasse uma e enviasse pelo primeiro portador. Quando recebeu a novidade em casa, me ligou e perguntou: "Como faço pra  te pagar?". Sabendo que ele era um dos "resistentes" (não a inovações, que fique bem claro, mas ao Bitcoin) a minha resposta foi: "Só aceitamos BTC". Ele teve que passar pelo processo de comprar BTC em uma exchange e pôde ver que o processo não é tão complicado como as pessoas dizem. Para comprar BTC's, basta fazer uma conta em alguma exchange de Bitcoin (existem inúmeras no Brasil), enviar uma foto do documento e pronto. É simples como isto.

Lá em Jacksonville, onde morávamos, tínhamos o hábito de pedir pizza aos domingos quando a nossa casa vivia cheia de amigos. A minha alegria foi enorme no dia em que eu entrei no site da pizzaria e quando fui pagar, lá estava uma nova opção de pagamento: Visa,  Mastercard, Amex e bingo: Bitcoin. Eu saí gritando pela casa "Vou ter o que fazer com meus BTC's". Naquele momento imaginei um mundo em que todos os sites passariam a aceitar BTC como moeda de pagamento. Cheguei a ter certeza que dali a 2 ou 3 anos todos os sites estariam aceitando BTC. Como curiosidade, naquele dia eu gastei mais de 0.5 BTC para comprar uma simples pizza. Se soubesse que o BTC estaria valendo 40x mais apenas dois anos depois daquele dia, jamais teria feito aquilo. Em dezembro de 2017 um TC estava sendo negociado a 20 mil dólares o que fazia com que a pizza que eu comprei com 0,5 BTC me custasse 10 mil dólares.

Desde aquela pizza o Bitcoin se tornou algo prioritário para mim e posso dizer que provocou uma enorme ruptura na minha vida profissional. Graças a ele voltei a empreender uma startup cujo objetivo é mostrar para as pessoas que o Bitcoin pode sim ser usado para fazer o bem. O Bitcoin é tão revolucionário que tem o potencial de ameaçar fortemente duas das instituições mais poderosas do mundo: os governos e o sistema financeiro mundial. Se esta ameaça se concretizar não sabemos, o futuro dirá.

Henrique Mascarenhas, CTO e head of blockchain, o engenheiro de software com mais de 25 anos de experiência foi fundador de uma das maiores empresas de TI do Brasil – a RM Sistemas, vendida há alguns anos para a Totvs. Após fazer um dos maiores exit do segmento, resolveu se reinventar mergulhando profundamente no universo do Blockchain. Ele será um dos painelistas do Forum Blockchain 2021 (www.forumblockchain.com.br)

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