Quando a Web ganhou o espaço sideral

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No dia 30 de maio de 2020, o mundo acompanhou o lançamento ao espaço da Crew Dragon, o mais recente foguete da empresa SpaceX a levar seus tripulantes a Estação Espacial Internacional (ISS). Além de ser a pioneira do setor privado a levar seres humanos para fora da atmosfera terrestre, a empresa de Elon Musk contou com recursos tecnológicos que não são desconhecidos ou de outro planeta: tecnologias web.

Antes de falar da Crew Dragon, vale a pena voltar um pouco no tempo e entender sobre essa evolução tecnológica digital, que envolve a Internet e a Web.

Em 1994 a Nasa lançou dois satélites STRV (Space Technology Research Vehicle) para estudar o ambiente espacial próximo à Terra. Em 1996, no mesmo ano que o Hotmail e o UOL foram lançados, o Programa de Padrões de Operações Espaciais no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa (JPL, tradução livre do inglês NASA's Space Operations Standards Program at the Jet Propulsion Laboratory) começou a testar padrões de transferência de dados muito próximos com os que a Internet já vinha utilizando. O SCPS (Space Communications Protocol Specifications) permitiu uma eficiente manipulação de arquivos baseado em FTP (File Transfer Protocol). Nesse laboratório trabalhavam Vinton Cerf, conhecido como um dos pais da Internet pela invenção do protocolo TCP/IP e Adrian J. Hooke, um dos fundadores do Comitê Consultivo para Sistemas de Dados Espaciais (CCSDS, tradução livre de Consultative Committee for Space Data Systems). Adrian, na época gerente interino do JPL, declarou:

"Você poderá transferir arquivos de e para a espaçonave, assim como na Internet, usando o que é conhecido como protocolo de transferência de arquivos (FTP – File Transfer Protocol) e o protocolo de controle de transmissão (TCP – Transmission Control Protocol)" (tradução livre).

Vint Cerf sempre foi um entusiasta da Internet Interplanetária. Durante o tempo em que trabalhou na Nasa contribuiu para o desenvolvimento de protocolos que permitiram a troca de dados entre espaçonaves e centros de comunicação na Terra. Em uma entrevista para a revista Wired em 2013, Cerf conta o quanto evoluiu a Internet para fins aeroespaciais.

Dentre as diversas tecnologias para o desenvolvimento da Internet interplanetária está o DTN (Disruption-Tolerant Networking), que tem uma série de protocolos que permite a transferência de dados a longas distâncias. Esses protocolos transferem pacotes como na Internet e possibilitam a transmissão de pequenos pedaços de informações. Segundo Cerf, esses protocolos de comunicação estão disponíveis em diversas estruturas no espaço, desde a Estação Espacial Internacional (ISS) até o veículo Curiosity Hover, que explorou o solo de Marte.

Em 2008, a Nasa divulgou que obteve sucesso no primeiro teste de Internet no espaço profundo. Utilizando o protocolo DTN, eles conseguiram transmitir dezenas de imagens espaciais de e para uma espaçonave científica da NASA localizada a cerca de 32 milhões de quilômetros da Terra.

O assunto é tão sério que foi criado um Grupo de Interesse no desenvolvimento de tecnologia para a Internet interplanetária. O IPNSIG (InterPlanetary Networking Special Interest Group) trabalha para engajar um público de interessados em financiar e executar a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico necessários para tornar a Rede InterPlanetária (IPN – InterPlanetary Networking) uma realidade. Esse grupo organizou até eventos para discutir sobre a rede interplanetária.

Cadê a Web nisso?

De volta para o lançamento da Crew Dragon, a SpeceX já tinha afirmado que utiliza Linux para controlar os sistemas de seus foguetes. Mas, depois do lançamento da Dragon, eles divulgaram outras tecnologias utilizadas em seu último lançamento.

Antes de entrar no tema de tecnologias web, vale lembrar que Web e Internet são coisas distintas. O uso da Web vai desde protocolos de comunicação (como HTTP e HTTPS) até páginas agrupadas em um website ou aplicação – e que não precisam estar conectados à Internet para funcionar (como aplicativos para smartphones, por exemplo, que são baixados no dispositivo e que podem funcionar off-line). A Web tem um papel fundamental tanto para a comunicação quanto para interfaces. E é aí que a SpaceX faz uso de tecnologias web.

Os engenheiros da SpaceX promoveram uma sessão de "perguntas e respostas" no Reddit e de lá saíram diversas afirmações interessantes para quem está envolvido com tecnologia e Internet. Foram mais de 7.700 comentários no post, entre perguntas do público e respostas do time de engenheiros. Sofian Hnaide, Engenheiro de Software da SpaceX que trabalhou no sistema de interfaces da tripulação da Dragon comentou:

"O painel da tripulação a bordo do Dragon roda o Chromium com HTML, Javascript e CSS" e "Usamos Web Components extensivamente" (tradução livre).

Sobre outras linguagens utilizadas, Jeff Dexter, que trabalha com Software de Voo e Cibersegurança na SpaceX comentou:

"Usamos C ++ para todos os sistemas de controle de veículos, Python para ferramentas, testes e automação e Javascript / HTML / CSS para nossos painéis. As telas terrestres atuais que você vê no controle de missão do Falcon e do Dragon são baseadas no LabVIEW, mas nossas telas da tripulação e futuras exibições terrestres do Starship são baseadas na Web. Nossos sistemas de vôo usam um kernel Linux personalizado com o patch PREEMPT_RT." (tradução livre)

O perfil da SpaceX no github tem uma série de repositórios com algumas dessas aplicações que utilizam padrões Web.

O desenvolvimento de padrões para a Web é feito por diversas instituições e uma delas é o consórcio World Wide Web (W3C), que de forma colaborativa desenvolve os padrões internacionais livres e abertos. O W3C tem grupos de trabalho que atuam na evolução de padrões como alguns desses utilizados na SpaceX, HTML, CSS e a maioria das APIs Javascript para navegadores. No Brasil, o Ceweb.br (Centro de Estudos sobre Tecnologias Web do NIC.br) e o W3C Brasil elaboram estudos e disseminam conhecimento sobre o uso da Web nas suas tecnologias mais básicas, HTML e CSS e no seu uso em tecnologias emergentes como Inteligência Artificial, Web das Coisas, Dados na Web e Publicações Digitais.

A Web está hoje disponível em praticamente todos os dispositivos com alguma capacidade computacional. HTML, CSS e JavaScript são ótimas ferramentas para o desenvolvimento de interfaces tanto para fazer uma compra on-line quanto para controlar hardware de foguetes no espaço.

Estamos vivendo um momento de grande transformação tecnológica. A Web não é mais apenas aquela página que rodava em um navegador de computador desktop. Ela está em muitos lugares que nem imaginávamos. E agora sabemos que ela está dentro de um foguete no espaço.

Depois que a Web chegou ao espaço sideral, a pergunta que podemos nos fazer agora é: para onde ela vai agora?

Reinaldo Ferraz, do Ceweb.br/NIC.br e W3C Brasil.

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