IPOs de empresas de tecnologia caem ao nível de 2008, ano da crise do subprime nos EUA

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As ações das empresas de tecnologia que fizeram suas ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) nos últimos 12 a 18 meses caíram para um patamar de preço de sete anos atrás nesse segmento, o que tem deixado bastante decepcionados — e relutantes em fazer grandes apostas — os investidores que injetaram bilhões de dólares em startups na esperança de obter um grande retorno.

O reflexo imediato disso é que os IPOs de empresas ligadas à área de tecnologia responderam por apenas 11% das ofertas iniciais de ações nos Estados Unidos até agora no ano, de acordo com dados da empresa de pesquisa Renaissance Capital. Segundo a consultoria, este é o nível mais baixo desde 2008, quando os IPOs de tecnologia responderam por 10% das ofertas devido à crise financeira provocada pelos empréstimos subprime (hipotecas imobiliárias de alto risco) nos EUA. Para completar, as ações de grande parte das empresas que abriram o capital não têm apresentado bom desempenho.

A queda no número de IPOs é um forte sinal de que os investidores estão mais reticentes do que na época da euforia, além de os fundos de capital de risco estarem paulatinamente se desfazendo de seus papéis, ameaçando as perspectivas de um mercado que vinha se mostrando como um dos mais sólidos para investimento nos EUA.

De acordo com a Renaissance Capital, existem pelo menos 117 empresas que receberam investimento de companhias de capital risco que elevaram seu valor de mercado para US$ 1 bilhão ou mais, quase o dobro do número existente há um ano. A avaliação da consultoria é que esses investidores podem ter um baixo retorno se o mercado de IPOs não for capaz de sustentar valorizações ainda mais elevadas.

"A premissa das companhias de capital de risco é que o rápido crescimento das empresas proporcione, facilmente, um retorno de dez a 20 vezes, o que não está se sustentando no mercado de capitais, tornando difícil que produzam o retorno esperado por seus sócios", disse Paul Bard, diretor de pesquisa da Renascença, em um e-mail enviado ao The New York Times.

Por isso, segundo ele, para terem certeza de que conseguirão levar os recursos esperados, algumas startups mais valiosas estão adiando os seus IPOs. Esse é o caso do Uber, dono do aplicativo de caronas que viabiliza corridas particulares, unindo motoristas autônomos e passageiros, que estima aumentar sua receita em 400% neste ano, e o Airbnb, site de aluguel de casas e apartamentos, que espera triplicar sua receita, conforme reportagem do The Wall Street Journal, para só daí pensar numa oferta inicial de ações.

O empreendedor e investidor de risco Marc Andreessen, sócio do fundo de investimento Andreessen Horowitz, disse durante uma troca mensagens no Twitter com o jornal americano que os investidores estão adotando uma visão mais atual com os dias de hoje, dando às startups mais tempo para que seus negócios amadureçam.

Momento desfavorável

Para analistas, uma série de fatores têm levado as empresas de tecnologia a protelarem seus planos de fazer uma oferta pública. Muitas empresas estão preferindo permanecer com seu capital fechado por mais tempo, graças a rodadas de investimentos lucrativas, que fornecem capital suficiente para expandirem suas operações, inclusive no exterior, sem a dor de cabeça de terem de se relacionar com investidores e órgãos reguladores de valores mobiliários. Um exemplo disso, novamente, é o Uber, que arrecadou mais de US$ 5 bilhões de investidores, incluindo a Microsoft, o que elevou seu valor de mercado para algo próximo de US$ 51 bilhões.

Além disso, segundo os analistas, a volatilidade do mercado causada pelos temores de uma desaceleração da economia da China e o plano do Federal Reserve, o banco central dos EUA, de elevar as taxas de juros não têm animado as empresas a realizarem IPOs. Normalmente, as empresas são mais propensas a listar suas ações em bolsa quando os mercados estão fortes, para maximizar seus ganhos. Oscilações acentuadas nos preços das ações também têm deixado potenciais investidores mais cautelosos.

O dado relevante é que, no geral, as empresas de tecnologia que abriram capital neste ano obtiveram um retorno de 3% sobre o preço das ações no IPO, e menos de 15% do preço de fechamento do dia anterior no seu primeiro dia de negociação na bolsa, de acordo com dados da consultoria Dealogic.

Igualmente reveladora é a informação de que os preços das ações de pelo menos dez empresas norte-americanas que têm capital aberto desde 2014 caíram abaixo da última cotação com base na qual levantaram capital com investidroes. As ações da empresa de software Apigee, por exemplo, fecharam a quinta-feira, 10, negociadas a US$ 7,47, queda de 66% na comparação com os US$ 22,12 que fundos de capital de risco pagaram início do ano passado.

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