Construir, incluir e educar: a transformação digital ao alcance de todos

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Vivemos uma realidade em que avanços tecnológicos pautam nosso comportamento e nossa sociedade. Uma era em que a tecnologia se transforma em hábito do nosso dia a dia.  Somos uma sociedade em metamorfose, dentro de um casulo tecnológico global que muda nossa cultura de forma totalmente irreversível.

Nossa convivência social, e até profissional, não existe de forma plena sem a intervenção de ferramentas tecnológicas. Negócios são realizados através de plataformas e o smartphone é como se fosse uma extensão de nossa própria capacidade cognitiva e de execução, sem o qual não faríamos parte deste mundo conectado. Desde a escola até o governo. Todo o nosso relacionamento atual se dá através de plataformas em diversos níveis de intensidade e abrangência.

Me preocupa o oportunismo com o qual as novas necessidades e especialidades profissionais são tratadas e a mobilização de jovens para carreiras emergentes com promessas nem sempre factíveis ou mesmo verdadeiras. Parte dessa preocupação vem do fato de que precisamos ter meios consistentes e acessíveis para preparar esse contingente enorme de pessoas que, inevitavelmente, enfrentará uma realidade mais complexa do que simples redes sociais. Faculdades, institutos, cursos, enfim, mobilizam-se por oferecer capacitação. Mas será suficiente?

A capacitação, se estruturada de forma coerente, alinhada com os objetivos do mercado de trabalho – empresas e governo – é necessária para a construção e modernização do país sob o ponto de vista tecnológico. Precisamos de laboratórios, integração empresas-universidade, políticas públicas e tudo mais que permitirá sermos autossuficientes na geração de profissionais qualificados e prontos para atender a essa demanda.  Neste aspecto, estamos até caminhando, não da melhor forma nem com a intensidade que precisamos, mas estamos.

Mas capacitar não é o único e talvez nem seja o principal entrave para que a tecnologia realmente agregue valor a nossa sociedade e modifique de forma positiva a nossa qualidade de vida. Enquanto outras perspectivas não forem levadas a sério em nosso país, a tecnologia ainda será coisa de especialistas em realidades vivas e distópicas.  Em outras palavras: coisa para poucos.

Outro dia, li um post em uma rede social profissional, onde uma criança de talvez 14 anos estava em um showroom de um conhecido fabricante, usando um tablet em exposição para fazer um trabalho escolar, pois não possui computador em casa. Bacana ver o esforço e coragem do garoto, mas por que não dispomos de espaços públicos ou privados adequados, onde crianças ou adultos como ele possam utilizar esses recursos para simplesmente estudar como antigamente tínhamos as bibliotecas com acesso a livros, revistas e outros materiais para estudo e pesquisa?

Educar para o uso da tecnologia e a inclusão digital são duas dessas perspectivas sem as quais não teremos o futuro que merecemos e podemos ter. E não estou falando de educação para jovens e crianças somente. Mas para todos, inclusive idosos. De que adianta termos tecnologia abundante se as pessoas não sabem como usar? E usar não significa simplesmente saber "apertar os botões", mas entender como usar, porque e para que usar e, principalmente, estar a par de direitos e deveres ao usar. Saber respeitar as regras e leis e também exercer seus direitos nesse novo ambiente é tão importante quanto mexer em um smartphone ou postar em uma rede social. Estamos falando de educação, aquela que mexe com os hábitos, forma cultura, ensina e motiva o uso saudável, não somente capacita. Só assim teremos pessoas que utilizarão as tecnologias de forma responsável e integradas ao seu dia a dia.

É necessário pensarmos em inclusão para que as tecnologias sejam úteis a toda a sociedade. Não adianta a mais avançada tecnologia ou inteligência artificial se somente uma camada da população tiver acesso aos seus benefícios. Estaremos (e acho que ainda estamos) promovendo mais uma vez uma distribuição de oportunidades e recursos de forma desigual e injusta. Iremos pagar um preço muito alto se continuarmos por esse caminho, como já pagamos hoje pela falta de distribuição de renda e oportunidades de educação por toda a sociedade. Temos uma chance de fazer de novo e certo.  Basta lembrar que a transformação digital tem pelo menos três componentes que precisam andar juntos: construção digital, inclusão digital e educação digital. Não basta ter tecnologia de ponta, precisamos ter uma sociedade apta a construí-la e utiliza-la para que dela possa obter usufruir e, como anda na moda dizer, desfrutar.

Enio Klein, CEO da Doxa Advisers, Gerente Geral nas operações de vendas da SalesWays no Brasil e professor nas disciplinas de Vendas e Marketing da Business School São Paulo.

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