Desafios dos pagamentos instantâneos no Brasil

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A tecnologia está presente em praticamente todos os processos da nossa rotina, trazendo agilidade para diferentes tarefas e melhorando a qualidade de vida dos cidadãos. No mundo corporativo e, mais especificamente, no setor financeiro, isso não é diferente. A nova tendência é o pagamento instantâneo, ou seja, a troca do dinheiro pelos cartões de crédito e débito ou pelos smartphones para realizar pagamentos, concluindo as transações em segundos.

Um exemplo prático do funcionamento desse modelo de negócio já está em funcionamento na Europa. O Bpay, do Marketplace espanhol Bnext oferece serviços de pagamentos instantâneos – ou seja, clientes podem receber montantes de terceiros diretamente, apenas usando o aplicativo.

Iniciativas como essa têm ganhado força também em outros países, como China, Austrália, Estados Unidos e, nos próximos anos, devem desembarcar também no Brasil. Para ter uma ideia dos avanços locais, o Banco Central acaba de divulgar sua plataforma para suportar esse tipo de aplicação, chamada Pix, que começa a ser disseminada em larga escala a partir deste ano.

Mercado a ser explorado não falta: segundo o próprio BC, existem hoje 220 milhões de aparelhos para 207,6 milhões de brasileiros. O pagamento móvel está crescendo de forma particularmente forte no Brasil, onde quadruplicou e atingiu níveis superiores a 8%, e é, juntamente com o México, o país onde tem tido a maior adoção como principal meio de pagamento. No entanto, os brasileiros usaram menos o pagamento móvel entre os indivíduos (P2P) no último mês. Apenas 6%, comparado com 24% na Colômbia ou 15% no Chile.

Para que a tecnologia possa evoluir no país, devem ser ouvidas as opiniões dos diferentes players do mercado (sejam eles tradicionais ou novos entrantes) e assim estruturar uma governança correta onde todos possam participar em igualdade de condições. Isso vai permitir a criação de um ecossistema de pagamentos saudável e com maior concorrência e inovação.

Mas, antes disso, quatro desafios inerentes à própria concepção do modelo de negócio têm de ser superados: a criação de um modelo de negócio consistente e duradouro; a escolha do modelo mais adequado para a realização da compensação e liquidação da operação; detecção precoce e o controle eficaz da fraude; e a capacidade efetiva de maximizar o alcance da solução, ou seja, conseguir um amplo apoio entre as entidades e potenciais utilizadores do serviço.

Do lado dos clientes, trazer essas iniciativas para o mundo real depende de acessibilidade, segurança, definição de infraestruturas e rapidez na oferta de serviços. Em uma pesquisa conduzida recentemente, foi possível observar que muitos ainda não têm um senso claro da utilidade que essas soluções podem trazer no dia a dia. Atualmente, a irrelevância (30%) é o principal fator identificado pelos usuários para não utilizarem pagamentos móveis. Em seguida, estão a desconfiança (20%), e falta de conhecimento (10%). O sucesso dos pagamentos instantâneos a fim de torná-los mais populares (como aconteceu, por exemplo, na Espanha com a Bizum) dependerá, portanto, de ações para minimizar essa percepção do consumidor.

Apesar disso, os benefícios com esses investimentos são vastos, atingem instituições de todos os portes e esferas (pública e privada) e já têm exemplos concretos. Do lado das corporações, as PMEs podem obter avanços significativos com as transações realizadas com pagamentos instantâneos.

Em maior escala, na Austrália, a agência do governo Centrelink começou a fazer pagamentos instantâneos aos clientes através da plataforma New Payments Platform (NPP) em tempo real. Ao todo, foram distribuídos US$ 2,2 milhões do fundo de recuperação de desastres do governo australiano durante as inundações de Townsville em tempo recorde, reduzindo o prazo de espera de dois dias para apenas alguns segundos.

A concepção de uma solução de pagamento instantâneo e a sua posterior implementação implica desafios significativos, pois não pode ser de outra forma quando falamos de inovação. Um dos mais notáveis é o investimento significativo a ser feito juntamente com a dificuldade de encontrar um modelo de negócio consistente. Outro desafio enfrentado pelas soluções de pagamento instantâneo é a escolha do modelo mais adequado para a realização da compensação e liquidação da operação subjacente. Devido à rapidez com que as transações são executadas e à sua natureza irrevogável, a detecção precoce e o controle eficaz da fraude estão surgindo como desafios prioritários. O quarto desafio tem a ver com a capacidade efetiva de maximizar o seu alcance, ou seja, conseguir um amplo apoio entre as entidades e potenciais utilizadores do serviço.

É necessário estar atento a essa tendência. Consumidores demandam cada vez mais agilidade para todas as tarefas realizadas no dia a dia e lidar com meios de pagamento com maior facilidade também será algo que deve crescer nos próximos anos. Companhias devem se adaptar para capturar esse potencial de mercado e criarem uma nova onda de inovação dentro do setor.

Ricardo Granados, head de Meios de Pagamento da Minsait Payments no Brasil

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