Impacto socioambiental: na ponta da língua e na ponta do lápis

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O valor de um negócio não está apenas naquilo que ele gera para si por meio da transação no mercado. Tem que ser bom para todo mundo!  E bom significa fazer diferença, gerar um impacto positivo para além de suas fronteiras com foco triplo de valor: social, ambiental e econômico.

Os objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), propostos pela agenda 2030 ONU, se consolidam cada vez mais como uma linguagem comum para a identificar, estabelecer e reportar os alvos de impacto. Os 17 ODS se tornaram referência, uma vez que contemplam os grandes problemas que, em maior ou menor grau, afetam pessoas, organizações e nações.

Karina Coleta, professora Convidada da FDC na área de Estratégia 

Existem negócios que já nascem com o propósito de gerar impacto positivo, outros incorporam esta responsabilidade crucial. Importa que o alvo seja buscado de maneira intencional e não ocasional. E que esta intenção de endereçar um problema social ou ambiental seja explicitada, interna e externamente, com clareza. Porém, isto ainda não é o bastante. É preciso definir indicadores que deem ao negócio, e aos seus stakeholders, a capacidade de medir e compreender o impacto efetivamente gerado. Isso traz transparência e realidade para a atuação. O monitoramento estratégico mantém no horizonte as perguntas: Como o problema estava antes da intervenção? Que transformações ocorreram ao longo do tempo por causa da intervenção? Ou seja, o impacto de um negócio é igual à situação depois da sua solução menos a situação antes de sua solução.

Esse tipo de análise não é tão simples na prática, principalmente em estágios iniciais. É na medida em que o negócio avança na jornada, que ele vai compreendendo a dimensão e os limites de seu impacto no problema. Isto significa que a visibilidade do impacto requer tempo. Também é preciso levar em consideração que outras variáveis interferem na observação. Nem sempre é possível distinguir quais mudanças ocorreram apenas em função da intervenção do negócio.

Difícil não significa impossível e, em algum lugar entre o ideal e o possível, existe um meio de captar os dados de impacto. Diversos materiais de referência foram construídos para apoiar o acompanhamento da real contribuição socioambiental do negócio. Um deles enquadra a narrativa de impacto dentro de um frame com perguntas-chave que combinam a lógica da teoria da mudança[1] com o estabelecimento de indicadores de curto, médio e longo prazos.

O modelo tem sete componentes com uma lógica "de-para", do problema ao impacto. Os primeiros quatro primeiros componentes se referem às escolhas feitas para posicionar e gerar o impacto. Primeiro, o problema indica o "porquê" a startup faz o que faz. Qual é o problema social ou ambiental que mobiliza o seu negócio e o faz intervir? Em seguida, entram os inputs, os principais recursos (humanos, financeiros, físicos, etc) que tornam possível a realização das atividades da startup para solucionar ou reduzir o problema levantado. As atividades, por sua vez, mostram "o que" a startup faz diante do problema e com os recursos que mobiliza para promover mudanças. Finalmente, é importante que a narrativa inclua o público ou foco, ou seja, "para quem" são direcionadas as atividades realizadas.

Os três últimos componentes são as consequências. Eles representam o centro da análise do impacto. É a partir deles que a startup demonstra o seu "para que". É preciso diferenciar três tipos de consequência: outputs, resultados e impactos.

Os outputs se referem às entregas tangíveis geradas pelas atividades. Isto é, são os produtos ou serviços oferecidos. Aqui, devem ser apresentados dados quantificáveis, por exemplo: 10 cursos realizados, 320 alunos formados, 500 refeições distribuídas. Mas atenção: ainda não estamos falando dos efeitos no público, mas daquilo que o negócio já apresenta como alcance imediato de suas atividades.

Agora sim. Resultados. São eles que demonstram as mudanças diretas que ocorreram na vida das pessoas ou nas questões ambientais por causa da intervenção da startup. São efeitos de curto ou médio prazo e podem ser quantitativos ou qualitativos. Por exemplo: o aumento da renda dos participantes, a redução de doenças entre a comunidade ou o fortalecimento da cidadania.

Os impactos também indicam mudanças. São os efeitos de longo prazo para os quais a intervenção da startup contribuiu. São resultados mais macro e sistêmicos que derivam de um conjunto de esforços como, por exemplo, o aumento do IDH da região ou a redução da mortalidade infantil.

A coleta sistemática dos dados referentes ao impacto gerado pelo negócio demonstra um compromisso com o propósito declarado e com resultados concretos. Significa disposição do negócio para "walk the talk", atuando em uma perspectiva de transparência, prestação de contas e responsabilidade para com a sociedade. Isso vai além do discurso ou das intenções e boa vontade; fortalece o ecossistema de impacto; combate práticas exploratórias de impact washing[2] e mostra um empenho genuíno em criar valor por meio da solução de problemas críticos.

Fabian Salum, professor Titular da FDC nas áreas de Estratégia e Inovação e Karina Coleta, professora Convidada da FDC na área de Estratégia 

[1] Modelo causal que demonstra a cadeia de intervenções (ações e atividades) e seus respectivos resultados em termos de transformação da situação inicial. https://evalpartners.org/library/theories-of-change-and-logic-models-telling-them-apart

[2] Declaração de compromisso com o impacto positivo sem que ele possa ser demonstrado porque é falso ou inexistente, ou seja, é uma declaração feita em função de má-fé ou oportunismo. O relatório 2020 da pesquisa anual da Rede Global de Investimento de Impacto (Global Impact Investing Network) mostra que o impact wahsing é o principal desafio que os investidores de impacto destacam para os próximos cinco anos. https://thegiin.org/research/publication/impinv-survey-2020

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