Foram 27 horas até chegarmos a Austin para acompanharmos de perto, pela primeira vez, o maior festival de inovação e tecnologia do mundo. Nosso objetivo era claro: absorver ao máximo os conteúdos das palestras. Mas a impressão que ficou? Muito barulho, pouca profundidade.
O SXSW Edu e o SXSW são eventos completamente diferentes. O primeiro é mais tranquilo, sem filas e com fácil acesso às palestras, mas também sem nada realmente novo. Os temas? Os de sempre: STEAM, ciências, tecnologia, engenharia, artes e matemática, além de inteligência artificial e robótica. Tudo muito superficial, opinativo, sem embasamento mais sólido.
Já o SXSW é outro universo: a cidade muda, as conexões são outras, e a energia do evento também. Mas, junto com essa efervescência, vêm as filas intermináveis e a sensação de que se está perdendo algo. Conseguir assistir a uma palestra específica muitas vezes era uma missão impossível. E, quando conseguíamos, raramente saíamos de lá com aquela sensação de "caramba, nunca vi nada disso". A inteligência artificial dominou as discussões, como já era esperado, mas, no geral, tudo muito raso. Isso não é apenas uma crítica, mas uma constatação com base na nossa jornada diária, na qual acompanhamos de perto inovação, tecnologia e, principalmente dados. Ou seja, nos baseamos em algo tangível, capaz de mostrar não apenas tendências, mas resultados concretos.
É impossível ir ao SXSW e não mencionar Amy Webb, que mais uma vez foi uma das grandes atrações, apresentando seu relatório anual de tendências. Desta vez, com mil páginas, o estudo apontou três tecnologias que, juntas, vão mudar o jeito como a gente vive: inteligência artificial, sensores e biotecnologia. Será que ela está certa ou haverá uma mudança de rota? Veremos no Texas em 2026.
E o que tem a ver tecnologia com saúde? Essa sim, foi um assunto muito interessante trazido pela cientista social e pesquisadora de conexões humanas, Kasley Killam. Ao abordar a questão da saúde social, a autora de "A arte e a ciência da conexão: por que a saúde social é a chave que falta para viver mais, com mais saúde e mais feliz" (The Art and Science of Connection: Why Social Health is the Missing Key to Living Longer, Healthier, and Happier), foi enfática: "A tecnologia tem que ser redesenhada para promover relacionamentos." É uma excelente reflexão. Inclusive, trouxemos o best-seller na mala e já estamos devorando e adorando.
Tanto se falou em IA, mas uma questão importante que sentimos falta no evento foi um debate mais estruturado sobre o impacto dela a longo prazo. Regulação? O envolvimento do governo? Nada disso foi abordado em profundidade e de forma prática. Tudo ainda parece muito no campo do achismo, sem dados concretos ou uma visão mais pragmática dos impactos que essa tecnologia pode trazer.
No fim das contas, o saldo da experiência foi positivo, mas não transformador. O SXSW continua sendo um grande evento, mas ficamos com a sensação de que faltou substância. Muitas falas inspiradoras, poucos dados concretos. Muito hype, pouca inovação de verdade. O que nos resta agora é acompanhar como essas discussões vão evoluir nos próximos anos – e torcer para que a inovação vá além do discurso.
Erick Moutinho e Anderson Moutinho, fundadores da Eskolare.