Apesar de valerem bilhões, Pinterest, Uber e Snapchat ainda são meras promessas

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No auge da bolha das pontocom no ano 2000, muitas startups passavam a valer US$ 1 bilhão quase que da noite para o dia. Agora, uma empresa nascente de base tecnológica pode chegar ter valor de mercado quase dez vezes maior que o de uma década e meia atrás — e isso, por mais incrível que possa parecer, muito antes de lançar a sua oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) ou mesmo antes de começar a dar lucro.

Ainda que os números muitas vezes não justifiquem uma valorização tão grande, a perspectiva de se descobrir um novo Facebook ou Google está impulsionando a corrida dos fundos de capital de risco por empresas de internet iniciantes. Um levantamento feito pelo jornal britânico The Guardian mostra que os investimentos de capital de risco estão no seu maior nível desde 2001 e as startups estão conseguindo os maiores valorizações, em média, desde pelo menos 2004.

O site de compartilhamento de fotos Pinterest, por exemplo, levantou na semana passada US$ 367 milhões em mais uma rodada de investimentos, o que elevou seu valor de mercado para cerca de US$ 11 bilhões. Esta foi a sétima rodada de financiamento formal obtido pela empresa.

A rede social funciona como um grande mural em que, conectadas até pelo próprio Facebook, as pessoas podem colocar imagens de decoração, animais, gastronomia e outros temas que gostem, para serem compartilhados com outras pessoas. Os anunciantes também podem colocar suas próprias imagens e compartilhá-las com os usuários.

Será que vale o investimento? "O Pinterest sabe o que seus usuários aspiram", diz Ben Thompson, analista independente que escreve sobre o setor de tecnologia no Stratechery.com. "Pode ser o registro das férias ou um evento significativo, como um casamento ou o nascimento de um bebê. Isso faz com que seja atraente tanto para a publicidade de marca quanto o marketing direto. Todos eles [os usuários] podem realizar compras de grande valor, bem como a empresa pode usar esse potencial para firmar sua marca", diz ele. Ou seja, o Pinterest sabe o que as pessoas estão olhando. O que ele precisa é convencer seus usuários a comprar no site, e continuar comprando.

Negócio sustentável?

Situação semelhante ocorre com o serviço de mensagens móveis temporárias Snapchat e o BuzzFeed, popular site americano de conteúdo viral.

O Snapchat já arrecadou US$ 200 milhões do gigante do comércio eletrônico chinês Alibaba e elevou seu valor de mercado para cerca de US$ 15 bilhões. Mais do que um simples aplicativo de mensagens, o Snapchat tem despertado a atenção de investidores pela efemeridade do seu conteúdo. As fotos e mensagens enviadas desaparecem depois de um certo tempo, atraindo mais de 100 milhões de usuários, muitos deles adolescentes.

A empresa se tornou uma das startups mais valiosas do Vale do Silício e seus criadores, Evan Spiegel e Bobby Murphy, são os bilionários mais jovens do mundo, segundo o ranking da Forbes. As suas fontes de receita potenciais incluem a exibição de anúncios nas imagens que as pessoas vêem, cobrando pela visibilidade, e a compra de "adesivos" (gráficos online) pelos usuários para enviar para seus contatos. Para analistas, o Snapchat pode crescer o suficiente e levar as pessoas a usar seu serviço por vários anos, gerando receita comparável.

Já o BuzzFeed, avaliado em US $ 850 milhões, nasceu em 2006 como um laboratório tecnológico para averiguar os motivos de alguns conteúdos se transformarem em virais na rede e como e por que as pessoas os compartilham. Apoiado pelo sucesso de redes sociais como Facebook e Twitter, o site ganhou logo popularidade entre uma audiência jovem que abraçou os conteúdos leves do Buzzfeed, suas listas fáceis de compartilhar, fotografias engraçadas e vídeos de gatos e outros animais. O seu modelo de negócio — rentável, com receita anual de mais de US$ 100 milhões — é baseado em conteúdo patrocinado.

Será que vale o dinheiro? O Washington Post está avaliado em cerca de US$ 250 milhões, a Tribune Publishing, proprietária do LA Times, vale cerca de US$ 490 milhões. Marc Andreessen, fundador da Netscape, que agora dirige o fundo de capital de risco Andreessen Horowitz, investiu US$ 50 milhões no BuzzFeed, acredita que ele pode ser "uma nova instituição profundamente importante da mídia". Pode ser o primeiro dos "novos jornais" para a web.

Serviços polêmicos

Mas a startup mais badalada e polêmica do momento é a Uber, dona do aplicativo de mesmo nome que conecta passageiros a motoristas profissionais, avaliada em US$ 41 bilhões. Proibido em alguns países, o Uber insiste que é um aplicativo de a empresa de "compartilhamento de carona", e não uma empresa de táxi — o que, na realidade, permite contornar muitos inconvenientes dos regulamentos que regem o uso de táxi em várias cidades ao redor do mundo. Esse modelo inovador tem gerado a ira de taxistas no mundo todo, que acusam o Uber de violar leis e promover concorrência desleal.

O modelo de negócio funciona da seguinte maneira: qualquer proprietário de veículo se cadastra para virar motorista do Uber e o usuário cadastra seu cartão de crédito no aplicativo. Os preços vão de US$ 9, para uma corrida rápida em um táxi, a US$ 3 mil, valor cobrado para viagens de helicóptero na cidade de Nova York. A startup fica com 20% do valor pago ao motorista.

Muitos no Vale do Silício acham que a empresa tem valor de mercado alto devido, principalmente, a seus algoritmos de logística. Esses algoritmos poderiam ser usados para todos os tipos de outros serviços de entrega, por isso Uber poderia expandir-se como aplicativo para a entrega de produtos em locais fixos. "Eles têm o maior potencial de qualquer uma das empresas nesta lista", diz Ben Thompson. "Eles estão fazendo uma tentativa de ser a conexão física entre tudo e todos." O céu pode ser o limite.

Por último há o serviço de transmissão online de música Spotify, cujo valor de mercado é estimado em US$ 5,7 bilhões. Ele virou polêmica após a cantora norte-americana Taylor Swift remover todo o seu catálogo do site de streaming ao lançar seu novo álbum "1989", que disparou imediatamente para o topo das paradas dos Estados Unidos.

Com 50 milhões de usuários que acessam a plataforma pelo menos uma vez ao mês, a empresa conseguiu convencer 12,5 milhões deles a pagar uma mensalidade equivalente a R$ 15 e, em 2013, faturou US$ 1 bilhão. Os ouvintes, porém, não são "donos" da música; ela é transferida para o seu desktop ou dispositivo móvel, por isso requer uma conexão de internet decente ­— pois não grava em nenhuma unidade de CD.

Fundada em 2006, o Spotify se expandiu para 53 países, cobrindo uma população de internet de mais de 1 bilhão de pessoas, dos quais 12,5 milhões pagam pelo serviço. Mas, apesar da receita expressiva, ele ainda não é rentável, e cerca de 70% das receitas vão para pagar músicos e gravadoras.

Mas ele é viável? "A imagem que surge do Spotify é que está no meio [espremido entre o Beats Music e o YouTube] … seria tolice subestimar a dimensão do desafio que ele tem pela frente", escreveu Mark Mulligan, da Midia Consulting, em seu blog Music Industry.

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